Dona Mariazinha já colocou a santa com a manta nova no altar. Mariazinha para os íntimos, mais no papel, Maria de Nazaré. A fé passada de geração em geração, deu nome de santos aos filhos. Seu José saiu cedo, comprou fogos. Dona Socorro correu na feira e voltou com a sacola cheia. É maniva para a maniçoba que vai estar na mesa bem cedinho para o almoço. Luciana e Pedro passaram a semana ensaiando, colocaram o chapéu de fita e pegaram os instrumentos, hoje é dia de arraial do pavulagem e vai homenagear quem o menino Plácido conheceu a pouco tempo. Dona Marlucia, professora de história, perguntou a turma: "Vocês sabem quem é Nossa Senhora de Nazaré?", várias crianças da classe levantaram a mão, apenas Plácido ficou com o braço abaixado, ali, calado, sem nenhum sinal de que saberia ou tentaria arriscar quem era. Mais a professora de anos de profissão, sabia que ali, havia apenas um pequeno menino humilde e envergonhado. Marlucia chamou Plácido e disse: “Oh menino, por que você não levantou a mão? Não sabe de quem eu estou falando?", Plácido levantou-se e disse: " eu sei sim 'fessora', mais acho que não é do mesmo jeito que meu amigos, não sei se a história é verdadeira, não sei se 'tá' certo”. Dona Marlucia sorriu, pediu para o menino ficar perto de sua mesa e conta o que sabia aos seus amigos, ele abriu um envergonhado sorriso e começou a contar a sua história.
"Nazica, é assim que meu pai chamava ela. Todos anos ele comprava um bebê, feito daquele material de vela sabe? Na verdade, nos últimos anos o bebê cresceu, tá assim, do meu tamanho. Meu pai conta que conheceu Nazica com a minha vó, minha vó com a mãe dela e assim por diante. Todos anos ela e minha mãe compravam maniva, pato e eu via a mesa cheia de coisas em casa e todo mundo falando da Nazica. Eu nunca vi ela, e sempre que perguntava sobre ela a alguém a pessoa começava a falar, falar e aí começava a chorar. Eu não sabia direito por que de tudo aquilo. Sempre achei que Nazica tinha morrido ou tinha sido uma grande amiga de todo mundo que foi embora e que ninguém mais viu, por que todo mundo sempre chorava quando falava nela. Todos anos meus tios e primos falam da Nazica, saiam e voltavam suados e cansados, mais felizes, aí pensei que Nazica deveria morar longe então. Cheguei um dia e puxei minha avó na sala, ela tava com uma roupinha pequena na mão e abriu a porta para minha mãe que estava com um saco cheio de uma coisa verde que todo mundo aqui em casa adora e disse que queria saber quem era a Nazica, ela simplesmente não me explicou nada, disse apenas para eu esperar. Me fez acordar cedo em pleno domingo e eu fui com ela pelas ruas do centro. Não tinha como andar, era muita gente. Gente de todas cores, de olhos puxados, gente preta, gente branca, gente índio. Tinha gente que falava estranho e todos choravam e cantavam. Fiquei meio assustado, ao mesmo tempo que todo mundo chorava, eles também sorriam. Todo mundo nas portas, olhando as pessoas passarem, todo mundo com as mesmas camisas e com fitinhas. Não demorou muito para eu ter a minha. Papai chegou, todo mundo chama ele de Zé, ele trazia fogos, foi um barulhão só, meus irmãos também chegaram, ele disse que nesse ano ele não ia comprar os bonecos de vela, que eu ia nas costas e me contou: “Filho quem achou Nazica foi alguém que tinha o mesmo nome que você”. Eu fiquei sem entender nada e perguntei pro meu pai quem era Nazica, ele só me apontou e disse: “É isso tudo filho” e aí eu entendi, vi ela pequeninha passando, cheia de flores, mais não era só aquilo, era tudo aquilo. Era cada lágrima, era ca

da criança de asas, eram aquelas casas nas cabeças das pessoas, era aqueles homens cansados puxando uma corda, era os papéis picados caindo lá do ceú, era todo mundo junto na rua cantando, era o meu pai comprando fogos, era meus irmãos tocando nas ruas, era minha avó com a roupa pequenininha, era minha mãe fazendo comida para meus tios e primos que vinham de longe pra ficar com a gente nesse dia, era tudo aquilo que eu tava vendo lá embaixo enquanto eu estava no ombro do meu pai. Nazica não é alguém, não é uma pessoa, não sei explicar. Nazica é algo que acontece com as pessoas, aqui dentro. Nossa Senhora de Nazaré é esse o nome dela e eu só entendi quando eu senti também. Virei para minha avó e vi ela chorando, eu chorei também e gritei nos ombros do meu pai: “ É CÍRIO VÓ... É CÍRIO”
Seja qual for sua crença ou seu credo, apenas sinta a magia que está pela cidade...
Um bom Círio a cada um de vocês...